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Audição no Idoso – Conceitos e Preconceitos

 

À medida que os anos passam, mesmo em pessoas gozando de boa saúde, são inevitáveis os sinais de desgaste nas funções orgânicas, repercutindo nos diversos níveis de interação e comunicação entre as pessoas.

A piora progressiva da visão de perto, normalmente percebida  na leitura ou em tarefas que exijam uma visão mais aguçada, costuma aparecer  ao redor dos 40 anos de idade, chamando logo a atenção, tendo em vista as dificuldades que provoca.

Trata-se da Presbiopia, ou “vista cansada”, como é popularmente conhecida. Deve-se a uma alteração do cristalino que diminui sua elasticidade, perdendo suas propriedades de acomodação, resultando em dificuldade progressiva para ver de perto.

É uma diminuição da acuidade visual, que se manifesta em todas as pessoas no decorrer do seu processo vital, sendo aceita com naturalidade.

Qual a atitude a ser tomada?  Procurar um oftalmologista, o qual vai confirmar o diagnóstico e determinar o grau de perda, para então, prescrever óculos adequados para suprir a deficiência.

Os óculos não curam o problema, até mesmo porque não se trata de uma doença. Eles simplesmente interpõem lentes entre seus olhos e o objeto do seu olhar, compensando, através delas, a deficiência visual resultante da presbiopia.

Isto tudo é aceito com naturalidade. A diminuição progressiva da visão, a maneira de lidar com o problema colocando óculos, os quais passam a fazer parte do seu visual, sem maiores problemas.

Tanto o problema quanto a maneira de solucioná-lo, usando óculos, são atitudes social e culturalmente aceitas.

E quanto à audição? É de se supor que ocorra problema semelhante.

De fato, a nossa orelha interna também vai envelhecer. É a presbiacusia, processo definido como diminuição auditiva relacionada ao envelhecimento, por alterações degenerativas da orelha interna, do nervo auditivo e das vias auditivas que conduzem o som até o cérebro.

Porém, as mudanças na audição são sutis e progridem muito lentamente no indivíduo saudável, sendo notadas mais tarde, ao redor dos 65 anos.

Os primeiros sinais, normalmente começam com a dificuldade de entender o que as pessoas falam, principalmente em ambiente ruidoso, ou quando várias pessoas falam ao mesmo tempo. Ou seja, a pessoa ouve, mas não entende ou entende mal.

Aí vem o inevitável: Hã? Que foi que você disse?

Uma segunda característica da presbiacusia é o fenômeno chamado de algiacusia, ou seja, irritação com sons fortes.

Isto faz com que, se o interlocutor responder falando muito alto, causará sensação de incômodo e a tradicional reclamaçã - Não grite que não sou surdo!

Este diálogo é típico, e com certeza muitos dos leitores já presenciaram ou até já passaram por isso, já que a deficiência auditiva acomete 70 % dos idosos (ao redor de 10 milhões de pessoas no Brasil).

A presbiacusia começa com perda auditiva mais acentuada nos sons agudos, mantendo inicialmente a audição para os tons graves. Isto justifica o exposto acima, pois o indivíduo vai ouvir as palavras, como se faltassem “pedaços”, dificultando o seu entendimento.

Com o passar do tempo, os tons graves também passam a ser afetados, dificultando ainda mais a audição.

Estudos recentes demonstram que a perda auditiva, mais do que a diminuição da visão, produz efeitos deletérios no processo de comunicação do idoso, levando ao isolamento e a quadros depressivos.

Este processo, tal como a presbiopia da qual falamos no início, manifesta-se com maior ou menor intensidade, em todas as pessoas no decorrer do seu processo vital.

Deveria, portanto, ser aceito e tratado com a mesma naturalidade.

Ou seja, a pessoa vai procurar um otorrinolaringologista para confirmar o diagnóstico e afastar outras causas ou agravantes, a seguir vai encaminhá-la ao fonoaudiólogo, o qual vai realizar exames audiológicos que vão caracterizar o tipo e a intensidade da perda.

Feito isto, novamente traçando um paralelo com a presbiopia, o próximo passo será colocar um aparelho auditivo, da mesma forma que se colocam óculos na diminuição da acuidade visual. Esta aparelho auditivo não vai curar a presbiacusia, mas vai intensificar aqueles sons para ou quais o indivíduo apresenta deficiência, de maneira que ele possa ouvi-los e ter a compreensão da palavra por inteiro.

Atualmente, existem aparelhos digitais, que através de chips programáveis, evitam os transtornos causados pelo ruído excessivo, que traziam muito desconforto nos aparelhos mais antigos, devido ao fenômeno da algiacusia.

Mas, na prática, o que observamos é que esta aceitação não transcorre de uma forma tão natural como deveria ser.

Por uma série de fatores, o que se nota é uma resistência muito grande na maioria das pessoas em usar aparelhos auditivos.

Em tese, isto se deve á varias causas, sendo que a primeira, seguramente é cultural.

Pelo fato da perda auditiva aparecer em idade mais avançada, ser motivo de brincadeiras e muitas vezes de intolerância, ao aceitar o uso do aparelho auditivo, algumas pessoas sentem-se como que admitindo algo inaceitável, ou como admitindo-se velhos e acabados. Com este preconceito arraigado, privam-se de algo, que no seu caso, poderia ser até mais importante que usar óculos, por exemplo.

A segunda causa deve-se a usuários de aparelhos inadequados ou mal adaptados. Estes não sentem melhora ao usá-los, ao contrário, sentem que o uso do mesmo causa mais incômodo do que ajuda, e passam a divulgá-lo de maneira negativa.

Quando à aparência, o aparelho auditivo de qualquer modelo, sempre será menos visível do que um par de óculos, o qual é usado com toda naturalidade.

Atualmente, existem aparelhos tão pequenos que podem ser colocados dentro do conduto auditivo externo, sendo praticamente invisíveis.

Desta forma, a não aceitação do aparelho auditivo parece ser realmente por motivos culturais equivocados, pela falsa idéia de associá-lo à velhice ou a fatores pejorativos, como se a necessidade de usá-lo fosse algo vergonhoso.

A finalidade deste artigo seria trazer a tona uma questão mais filosófica do que técnica em relação à presbiacusia, salientando alguns conceitos que nos parecem importantes.

No momento em que você sentir que está tendo dificuldade para comunicar-se, a solução existe. Basta vencer esta barreira cultural e usufruir desta solução como algo bom e que vai ajudá-lo, encarando com a mesma naturalidade que encarou seu primeiro par de óculos há muito anos atrás.

Nem todos se adaptam com facilidade a um aparelho auditivo. No entanto, se você estiver assistido por um fonoaudiólogo competente, a adaptação é uma questão de tempo, paciência e até de entrosamento com o profissional.

Não crie falsas expectativas. Entenda que nem os óculos, nem o aparelho auditivo, irão trazer de volta a visão e audição dos seus vinte anos. Sua função será de ajudá-lo a manter seu ritmo de vida normal, sem incapacitações que prejudiquem o seu convívio com a família e com a sociedade.

 Finalmente, se você sentir necessidade, não se prive deste benefício. Dê a você mesmo uma chance e procure um profissional que o oriente e encaminhe para testar um aparelho auditivo.

Você pode e tem o direito de viver em plenitude e com qualidade, qualquer fase de sua vida.